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Introdução


Mudanças à vista

Logo depois de sair do avião no aeroporto de Orly, você passa seu passaporte biométrico no scanner. Mas você já tem em mãos outro cartão eletrônico – o multiuso passe Navigo – que já serviu como bilhete aéreo e que também serve para entrar na estação 14 do metrô, em Orly. Todo o trajeto já havia sido pago pela internet, naturellement. O trem automatizado, sem motorista, segue para o centro de Paris em minutos – é só o tempo de um rápido telefonema. Ao chegar a Châtelet, você compra uma bebida e paga com o Navigo, diretamente na máquina. Uma rápida caminhada pelo centro, sem carros, e você chega aos jardins de Les Halles, exaustivamente reformados há 15 anos. Sentado em um dos bancos espalhados por ali, você lê as últimas notícias em seu computador portátil – uma cortesia do serviço Wi-Fi da cidade.


Esta é a Paris por volta de 2026 segundo a visão dos urbanistas e visionários – sob comando do prefeito Bertrand Delanoë. Em 2004, o prefeito de esquerda (que pretende ser eleito presidente em algum momento entre 2006 e 2026) encomendou uma pesquisa para saber como os parisienses gostariam que a cidade se desenvolvesse. O resultado coincidiu com seus planos e projetos de preservar a Paris histórica e, ao mesmo tempo, criar uma cidade mais agradável, com menos carros e menos poluição e um transporte público melhor. Paris pode até ser conhecida como a cidade que nunca muda, mas Delanoë não vê sua conservação como empecilho ao progresso.


O transporte público é prioridade na visão futurística do prefeito, e a empresa responsável, a RATP, vai apresentar novos projetos em um futuro próximo. Nos próximos 15 anos, várias linhas de metrô serão expandidas para melhorar o trânsito entre Paris e a periferia, enquanto a linha high-tech 14 poderá ir de Gennevilliers, no norte, até o aeroporto de Orly, ao sul. Sem maquinista e com portas anti-suicídio, os trens rápidos da linha 14 já são a marca do futuro – e a RATP estuda a possibilidade de automatizar ainda outras linhas.


O bonde ecologicamente correto vai ser um sucesso até 2026, com uma nova rede circundando o perímetro da cidade dentro do boulevard Périphérique. A primeira parte da linha foi inaugurada em 2005, ao sul, e a próxima ficará pronta em 2011. Mais uma vez, o projeto pretende estreitar os laços entre Paris e os subúrbios, fazendo a conexão entre o metrô e trens RER. O bonde elétrico também atenderá ao chamado de Delanoë para uma Paris mais verde: os 8 quilômetros iniciais serão margeados por 36 mil metros quadrados de gramados e mais de mil árvores. 


Sempre inovando, a RATP está desenvolvendo serviços high-tech para sua frota de ônibus. Mais irresistíveis ainda são os planos de atender ao sonho de todos os motoristas: instalar semáforos que fiquem verdes automaticamente. Não é preciso dizer que o sistema será restrito aos motoristas de ônibus, que se beneficiarão da coordenação entre os semáforos e os equipamentos GPS a bordo dos veículos. A tecnologia GPS também deve oferecer serviços de informações em telas de plasma. Os passageiros dos ônibus poderão ter uma visão aérea das ruas do entorno em 3D, além de saber o tempo estimado de chegada a cada ponto. Mais inovadoras ainda, as telas transmitirão minidocumentários atualizados, reportagens culturais e boletins meteorológicos e jornalísticos sobre as diferentes áreas do trajeto.


Se tudo indica que viajar por Paris vai ficar mais fácil em 2026, também vai ficar mais simples sair da cidade. Com o trem de alta velocidade, o TGV, capaz de atingir mais de 300 quilômetros por hora, a SNCF terá de fazer novos trilhos compatíveis com essa tecnologia – o que vai diminuir drasticamente o tempo de viagem dentro da França e para outros países. Até 2010, os parisienses poderão chegar a Estrasburgo, na fronteira com a Alemanha, em apenas uma hora e 50 minutos (comparado com as quase quatro horas de hoje), enquanto que a viagem para Rennes, no noroeste, será de menos de uma hora e meia em 2017 e o trajeto até Toulouse, no sul, será reduzido a duas horas.


Se todas essas iniciativas para o transporte público derem certo, os parisienses terão de abandonar o amado carro – e Delanoë não tem medo de fazer isso acontecer. Desde que assumiu o poder, em 2001, o prefeito (que dirige um carro elétrico) conseguiu reduzir em 13% o trânsito na cidade, graças à política de multiplicar as linhas de ônibus, reduzir as tarifas de estacionamento nas áreas residenciais e ampliar as ruas. Entre 2001 e 2004, o nível de poluição diminuiu 19% no principal eixo leste-oeste, na rue de Rivoli.


Com 82% de aprovação da população parisiense para essas políticas visionárias de transporte, Delanoë ficou ainda mais ambicioso. Seu desejo é reduzir o trânsito no centro de Paris em 25% em um prazo de cinco anos. O primeiro estágio de seu plano de três fases é reduzir o limite de velocidade para 30 quilômetros por hora nos quatro primeiros arrondissements e triplicar o valor da multa por estacionamento proibido. Foram construídos 90 quilômetros de ciclovias desde 2001 (com um aumento de 32% no uso da bicicleta), e novas ciclovias serão feitas ao longo do Sena. A partir de 2007, fica proibida a circulação de carros nas margens do Sena e no centro de Paris durante os fins-desemana, enquanto as ruas ao redor de Les Halles ficam exclusivas para pedestres. A fase final desse ambicioso plano é fechar, até 2012, os quatro primeiros arrondissements (a área imediatamente ao norte do rio Sena, entre a place de la Concorde e a place de la Bastille) para todos os veículos particulares não residentes na região.


Outro projeto ambiental para o futuro próximo é cobrir as áreas do rodoanel da cidade. Mais de 100 mil parisienses moram ao longo dos 35 quilômetros do Périphérique, convivendo com ruídos de mais de 70 decibéis e com os mais altos índices de poluição da cidade. A primeira das três áreas a se livrar desses poluentes será a Porte de Lilás, na região nordeste, no final de 2006. Com oito faixas subterrâneas para os carros transitarem, os moradores poderão aproveitar a nova área de 17,3 mil metros quadrados de paisagismo, com vastos jardins e instalações esportivas. O maior dos sonhos é fazer com que todo o Périphérique seja subterrâneo, para que a cidade seja cercada de verde.


Um dos efeitos de esconder partes do Périphérique seria aproximar Paris dos subúrbios. Diferente de muitas grandes cidades, Paris,definiu drasticamente seus limites. Desde 1860, a cidade está dividida nos mesmos 20 arrondissements,que cobrem 105 quilômetros quadrados. Concluído em 1973, o Périphérique só serviu para acentuar a divisão geográfica e social entre Paris e a periferia em expansão. Em 2004, mais de 2 milhões de pessoas viviam na cidade, enquanto a agglomération (região metropolitana) somava mais de 10 milhões. Os parisienses terão de engolir a arrogância devido à valorização imobiliária, que os fará sair do centro (já tendência nas famílias com crianças).


Ao mesmo tempo, as políticas de transporte de Delanoë são projetadas para melhorar a ligação com a periferia, inclusive construindo uma linha adicional de bonde de 70 quilômetros, em volta da cidade, além do Périphérique, até 2015. Todas essas medidas pretendem beneficiar a Grand Paris, onde o tradicional abismo entre o centro e o baulieue não é tratado como deveria.


Claro, é improvável que os subúrbios tirem o brilho de Paris num futuro próximo – e vários projetos urbanísticos estão em curso para garantir seu lugar nos holofotes. O mais importante disso é a revitalização da porção sudeste do Sena, no 13º arrondissement. Em 2005, a região ganhou uma passarela ligando a Bibliothèque François Mitterrand ao parc de Bercy e uma piscina flutuante ao ar livre, cheia de água filtrada do Sena. Até 2015, haverá quatro universidades na região, um novo parque cobrirá a área dos trilhos e os depósitos entre a Gare d'Austerlitz e a Bibliothèque serão convertidos em um cais e no Instituto Francês de Moda.


Enquanto isso, o desastre arquitetônico de 1970, o jardim e shopping subterrâneo de Les Halles, passará por uma reforma há muito necessária. Antigo bairro do mercado, Les Halles ganhou a reputação de ponto de encontro de criminosos e traficantes de drogas. O arquiteto parisiense David Mangin foi chamado para supervisionar sua transformação em uma grande avenida com jardins repaginados. A data mais otimista para a conclusão é 2012. Nas outras áreas, a Batignolles, ao norte, onde seria a Vila Olímpica, será recuperada com um grande parque rodeado escritórios, lojas e residências. Há outros projetos ainda indefinidos. A petite ceinture – a rede ferroviárias há muito abandonada nos arredores de Paris – tem sido considerada uma alternativa para uma nova rede de transporte público, um serviço de carga ou um calçadão arborizado.


Para a cidade que nunca muda, esses projetos parecem até ousados demais. No entanto, a essência de Paris está em seus monumentos e prédios históricos – e o novo planejamento urbanístico, adotado em 2004, prevê vários regulamentos para proteger o patrimônio da cidade. Estudado e debatido durante três anos, o Plan local d'urbanisme (PLU) define a paisagem de Paris para os próximos 15 a 20 anos. A preservação é a base, sendo que 4 mil construções a mais serão protegidas, fora as 1,9 mil já sob tutela do Estado. Cerca de 1,5 mil espaços verdes (parques, jardins e cemitérios) são áreas protegidas, enquanto uma vasta área foi reservada exclusivamente para o comércio. O PLU também tem como objetivo melhorar o equilíbrio nos arrondissements entre habitações populares e propriedades como residências e/ou escritórios. Assim, qualquer novo empreendimento residencial no centro bourgeois ou na região oeste deve ter pelo menos 25% da área dedicada a programas de habitação, contra os 20% do resto de Paris. Novas construções devem ser limitadas a 37 metros de altura, o que significa que, por enquanto, Delanoë perdeu o debate sobre o tabu da construção de arranhacéus na cidade.


Muitos observadores argumentam que tais restrições resultam em uma 'museificação' de Paris, sendo que os Grands Projets da era Mitterrand foram abandonados em favor do retoque cosmético (a renovação do leste em torno da Bibliothèque, da região de Beaugrenelle no 15º arrondissement ou de Les Halles). Diante de tanto ultra-conservadorismo, os projetos relativamente ambiciosos de Delanoë têm sido muito bem-sucedidos.


Mesmo que o visual do centro de Paris não mude de forma significativa, o panorama tecnológico revolucionará a vida. O bilhete dos transportes será eletrônico, com o cartão inteligente Navigo, da RATP, como padrão. Passando o chip do cartão pelo leitor óptico, os passageiros têm acesso às linhas de metrô e aos ônibus da cidade. A longo prazo, o Navigo pode ajudar os passageiros a fazer a baldeação com outros meios de transporte – e o mesmo bilhete poderá ser usado como cartão de débito para pequenas compras nas boulangeries, bancas de jornal e tabacs. A partir de 2007, os residentes franceses passam a estar equipados com um cartão de identificação eletrônico com foto e impressão digital digitalizadas.


O mosquito da internet continua contaminando a França. Em 2006, os franceses conquistaram o segundo lugar na lista de países europeus com maior número de usuários, e a France Télécom anunciou recentemente planos de desenvolver uma conexão de 1GB por segundo em 20 cidades francesas. O futuro Wi-Fi também é próspero, com mais hotspots (pontos de internet sem fio) instalados em cafés, aeroportos e estações de trem. A visão mais futurista é de uma cidade sem fio – onde qualquer um pode entrar na internet de qualquer lugar. Para isso, o terceiro arrondissement tem sido usado como piloto para os hotspots, onde cinco locais públicos-chave têm conexão sem fio. Ao mesmo tempo, a RATP está experimentando 12 hotspots em estações de metrô e na rota 38 de ônibus (ver  Wi-Fi, onde encontrar? ). No longo prazo, o plano é equipar as 373 estações de metrô. Como o hotspot emite um sinal que cobre um raio de 100 metros, isso daria à cidade uma ampla rede Wi-Fi.


Sem dúvida, em 2026 Paris ainda será Paris – a cidade que o barão de Haussmann reestruturou radicalmente no século 19. No entanto, a qualidade de vida deve melhorar, graças aos projetos com preocupação ambiental e inovações tecnológicas. Os turistas só precisam torcer para que toda essa nova tecnologia convença os parisienses a trocar seus cachorros por robôs – que serão incapazes de sujar as calçadas.



     

 





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