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Estados Unidos - Miami

Contexto - Literatura - Introdução 
 
Esquisita e com elementos fantásticos, a literatura ambientada em Miami combina com as loucuras locais


Nova York tem Paul Auster, Brett Easton Ellis, Jonathan Lethem, Jay McInerney e Tom Wolfe. San Francisco tem Ethan Canin, Michael Chabon, Dave Eggers, Armistead Maupin e Amy Tan. Mas quem são os escritores de Miami? Vale conhecer o trabalho de Edna Buchanan, James W. Hall, Carl Hiaasen, John D. MacDonald e Charles Willeford. Se nenhum desses nomes soar familiar, não há nada de errado: com exceção de Carl Hiaasen, autor de livros que costumam figurar entre os mais vendidos, os demais raramente freqüentam as páginas dos jornais e das revistas dedicadas à literatura. E isso não acontece porque o trabalho desses autores não mereça atenção (pelo contrário, são lidos atentamente nos estúdios de Los Angeles, que já transformaram em filmes várias obras de Buchanan, Hiaasen, MacDonald e Willeford), mas sim porque existe um certo preconceito literário em relação ao tipo de livro que eles escrevem: a ficção policial.


Os romances policiais são a maior contribuição dos escritores de Miami para a literatura. Não se discute que hoje Miami inspire mais escritores que abordam temas como crimes, suspense e mistério do que qualquer outra cidade norte-americana, embora o gênero não tenha surgido aqui. Os maiores expoentes do gênero, Raymond Chandler e Dashiell Hammet, eram do sul da Califórnia e ambientavam seus detetives nas regiões perto de Los Angeles e San Francisco. Mas, nas últimas três décadas, Miami se destacou na produção desse tipo de literatura, e não é difícil identificar os motivos: nesse período, nenhuma cidade teve tanta criminalidade quanto Miami. A partir da década de 1970, a cidade se especializou na arte do assassinato. A história recente coloca Miami na condição de explosiva combinação de pessoas vindas dos demais 50 Estados americanos, além de imigrantes de toda a América Latina.


O conseqüente quadro de racismo violento, tensões políticas, tráfico de drogas e crime organizado, combinado com um estilo de vida hedonista para os ricos e de grande carestia para os pobres, resulta em uma poção borbulhante. Basta acrescentar um pouco de calor  tropical e esperar pela explosão. Onde quer que essas explosões ocorram, muitas vezes a primeira pessoa a testemunhar o fato é uma repórter de cabelos longos e fala rápida chamada Edna Buchanan. Natural de Nova Jersey, mas há muito tempo atraída pelos encantos do sul da Flórida, Edna dedicou a maior parte de sua carreira às páginas policiais do Miami Herald, o que lhe valeu um prêmio Pulitzer. Seu relato autobiográfico deste período, The Corpse Had a Familiar Face, é uma leitura impressionante: o haitiano que foi morto em uma fábrica de Hialeah, o pai que matou a filha em coma no leito do hospital, o homem nu que atirou a cabeça arrancada de sua namorada para um policial – que a jogou de volta. No período em que Edna trabalhou no jornal, Miami quebrou todos os recordes de atos violentos, chegando, em 1980 e 1981, a ostentar o maior número de assassinatos do país. As mortes numa determinada casa noturna da cidade se tornaram tão comuns, que os funcionários colocavam os corpos junto com o lixo. Operações policiais deflagravam conflitos que atingiam bairros inteiros. O acúmulo de cadáveres no necrotério do Jackson Memorial Hospital forçou as autoridades a alugar um veículo refrigerado da lanchonete Burger King para acomodar o excesso.


Desde que abandonou a redação do jornal, no final da década de 1980, Edna Buchanan tem se dedicado à literatura, escrevendo uma série de romances que têm como personagem central Britt Montero, uma ousada repórter policial. Mas toda a ficção em seus livros não consegue concorrer com a realidade. Talvez nenhum crime represente melhor a turbulenta história da cidade do que o fato que tomou conta das manchetes do mundo inteiro, em 11 de abril de 1986. Naquela manhã, agentes do FBI vigiavam a elegante Pinecrest em busca de um grupo que ameaçava os bancos da região. Após identificar alguns suspeitos, os agentes os forçaram a parar e foram recebidos a balas. Durante alguns minutos, um intenso tiroteio explodiu no cruzamento da SW 183rd Street com a SW 22nd Avenue, bem perto da principal via do sul de Miami. Uma grande quantidade de munição cruzava a avenida de um lado para outro. Apesar de gravemente feridos, os dois bandidos cambalearam na direção dos agentes especiais do FBI, Jerry Dove e Benjamin Grogan, e os executaram.


Com esse tipo de conflito ocorrendo à luz do dia, a reação da maioria das pessoas poderia ser dar adeus à cidade. Mas, quando o jornal Miami Herald perguntou ao escritor Charles Willeford, em 1988, por que ele preferia viver em Miami, a resposta foi: “Por causa da alta taxa de criminalidade”. Willeford lançou a era moderna do romance policial baseado em Miami. No entanto, quem colocou a cidade no mapa do suspense foi o escritor John D. MacDonald (hoje lembrado sobretudo pelo romance que deu origem às duas versões de Cabo do Medo), com o detetive Travis McGee – mas isso foi na década de 1960, quando o sul da Flórida era bem mais modorrento.


Willeford deflagrou um peculiar universo de criminalidade com sua combinação de excentricidade e rispidez. Ex-animador de circo, ex-lutador de boxe e escritor de literatura pornô “suave”, dava atenção especial aos títulos (The Burnt Orange Heresy; The Shark-Infested Custard), embora a fama tenha vindo com um nome simples – Miami Blues, título escolhido pelos editores na esperança de pegar carona no sucesso da série televisiva Miami Vice. Publicado em 1984, este e os três romances posteriores eram protagonizados por um policial de roupas esfarrapadas chamado Hoke Moseley, que vagava na Miami em fase de transição. Para Mitch Kaplan, proprietário da rede de livrarias independentes Books & Books, “Miami Blues lançou a era moderna do romance policial.”


Willeford não tinha medo de chocar. Na cena inicial de Miami Blues (filmado em 1990 com o ator Alec Baldwin e que em português recebeu o título de O Anjo Assassino), o psicopata Freddy Frenger quebra os dedos de um Hare Krishna com um golpe de judô no aeroporto de Miami. Mas não pára aí: a vítima entra em choque e morre de ataque cardíaco. O ousado Willeford também seria vítima do coração, mas em decorrência de altas doses de álcool e de cigarros.

Se Charles Willeford inauguro um um estilo nos romances policiais situados em Miami, seu sucessor direto é Carl Hiaasen. Também exrepórter de polícia do Miami Herald (no qual tem uma coluna até hoje), Hiaasen se destaca pelo que já foi descrito como uma “mente suavemente cruel”. Uma espécie de Mark Twain ao contrário, Hiassen escreve sátiras que retratam] o “Estado do pôr-do-sol” como um “paraíso retorcido” (aliás, Paradise Screwed é o nome da coletânea de artigos do autor publicados no Herald). Na opinião do escritor, o paraíso começou a se perder a partir de uma maléfica combinação de investidores predatórios, políticos corruptos e turistas de exploração. Para Hiassen, que hoje vive e  Keys, a escrita é um meio de revelar o que ele considera uma devastação das riquezas naturais do sul da Flórida.


O autor consegue escrever sobre um idoso que é devora do por um crocodilo e fazer o leitor torcer pelo animal. Em maio de 2006, foi lançada a versão cinematográfica do livro Hoot (no Brasil, O Pio da Coruja) uma envolvente obra de ficção policial destinada ao público adolescente. Com a trilha sonora de Jimmy Buffett, o longa foi filmado em Fort Lauderdale: Hiaasen gosta de manter suas criações no ambiente da Flórida.


Já o autor James W. Hall, natural do Kentucky mas há tempos residente no sul da Flórida, começou a escrever obras de suspense (a estréia foi em 1986, com o livro Under Cover of Daylight) na mesma trilha de Hiaasen, mesclando batalhas ecológicas com assassinos cruéis, nem sempre hábeis, e uma saudável dose de ousadia no seu olhar sobre a destruição a seu redor. No entanto, ao longo de dez ou mais livros, Hall abrandou o tom, e seus suspenses hoje estão mais para relatos sobre desajustados à solta. Hall não chega perto de Hiaasen quando o assunto é esquisitice. O assassino do livro de Hiaasen Skin Tight, por exemplo, é vítima de uma cirurgia plástica mal-sucedida que o deixou com o rosto desfigurado, além de ter um dedo da mão direita decepado por um fatiador.


Mas o que aparenta ser uma ficção policial não raro baseia-se em fatos reais. Hiaasen admite que muito do que parece ser o produto de uma imaginação fértil na verdade saiu direto das manchetes dos jornais. “A Flórida é uma espécie de reino do mau-comportamento e, para falar a verdade, é difícil para um escritor se manter afastado da linha do extraordinário. Algumas vezes escrevi coisas que considerei absurdas e, no dia seguinte, uma manchete do Miami Herald me fez ver que não tinha inventado nada.”


Assim como muitos autores policiais, Hiaasen é um dos grandes cronistas dos Estados Unidos atuais – e leitura obrigatória para quem quer visitar a Flórida. O primeiro livro do autor, Tourist Season (1986), foi considerado pela revista GQ como uma das “dez melhores leituras sobre viagem de todos os tempos”. No entanto, o autor discorda: em sua opinião, o melhor livro escrito sobre Miami (ou, mais especificamente, sobre South Beach) é La Brava, de Elmore Leonard. Talvez você já tenha ouvido falar sobre Leonard. De acordo com a revista online Salon, ele é o “autor de romances policiais mais sereno do mundo”. Até as pessoas que nunca leram nada escrito por ele conhecem seu nome graças às adaptações para o cinema das obras O nome do jogo (Get Shorty, 1995), Jackie Brown (1997) e Irresistível Paixão (Out of Sight, 1998).


Ao contrário dos autores já mencionados que, se não nasceram e cresceram em Miami a consideram sua cidade de adoção, Leonard passou a maior parte da vida no Estado do Michigan. Seu primeiro romance policial (antes dedicava-se à criação de westerns) se passava em Detroit. Mas, como muitos outros norte-americanos, ele costumava passar férias no sul – e não demorou para identificar o potencial de singularidade na Flórida, a ponto de ambientar a obra Gold Coast em Fort Lauderdale. Os romances seguintes também tiveram como cenário o Sunshine State. A novidade veio com o livro Stick (1983), que reuniu a combinação que seduziu o público: Miami, “marielitos”, cinema e drogas. Os personagens de Leonard se encaixam perfeitamente na vida de Miami. Quem está do lado da lei (policiais, juízes e advogados) nem sempre tem moral, ao mesmo tempo em que os criminosos freqüentemente são apresentados como figuras malandras cheias de charme, como o personagem Chili Palmer, interpretado por John Travolta em O Outro Nome do Jogo: um típico personagem de Leonard que poderia ser encontrado no News Café da Ocean Drive. A pesquisa para os livros (Leonard contrata profissionais para a tarefa) é detalhada. Os personagens circulam pela delicatessen Wolfie’s de North Beach e compram comida na Jell-O; almoçam no Joe’s Stone Crab de South Beach e procuram suas vítimas nos arredores do Cardozo Hotel, na Ocean Drive. Pode-se ler a obra de Leonard com um mapa de Miami à mão, refazendo os percursos da trama.


Se parecer estranho que o principal expoente da literatura policial ambientada em Miami não viva na cidade, uma ressalva: o autor de suspense mais  famoso de Miami nunca escreveu sobre o local. Thomas Harris, que apavorou o mundo com seu personagem Hannibal Lecter (protagonista dos filmes O Silêncio dos Inocentes e Hannibal), mora na sofisticada Golden Beach, na extremidade norte de Miami Beach. Harris é uma presença fixa de South Beach, em geral exibindo seu característico chapéu de palha e uma barba capaz de confundir seus demônios interiores. Suspeitamos que a explicação para Harris jamais ter situado seus personagens na cidade campeã de excentricidades (na qual ele vive, inclusive) é que, se o velho e bom Hannibal resolvesse passear pela South Beach de Willeford, Hiaasen, Leonard e outros criadores, seria devorado vivo. Assim, não é surpresa que alguns especialistas considerem a literatura policial como o único gênero verdadeiro de Miami.


“Neste momento trata-se de uma cidade aberta, agressiva e confusa. Qualquer pessoa que escreva sobre este lugar e a respeito de quem somos certamente falará sobre crime e castigo”, acredita Les Standiford, autor de diversos livros do gênero policial situados em Miami, entre eles Raw Deal e Deal with the Dead. “Imagine se alguém tentasse produzir o New Times todas as semanas em Kansas City – o que haveria para escrever?” Assustador, mas é verdade.
 

     

 





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