Apesar da contínua censura, Dubai vive um boom de arte
Observar o transitório e sempre mutante horizonte de Dubai, ao longo da vasta faixa de construções que margeiam o litoral e profundamente para dentro do deserto que envolve a cidade, só faz impressionar o frenético avanço dos Emirados Árabes em toda sua audácia e escala. Ainda assim, nessa cidade de shoppings, arranha-céus, dinheiro novo e sonhos de consumo, pode parecer que você veio ao lugar errado para apreciar arte. E, certamente, até poucos anos atrás, era mesmo o caso.
Tudo isso está mudando, já que Dubai – junto com os vizinhos emirados Sharjah e o irmão mais velho Abu Dhabi – tem o plano de se tornar um centro regional para empreendimentos artísticos, enquanto também se esforça para atrair negociantes e o comércio de arte. Dezenas de galerias comerciais abriram suas portas por toda Dubai nos últimos anos, exibindo trabalhos contemporâneos e tradicionais não apenas do Oriente Médio. A cidade tem, agora, dois ‘quarteirões’ de arte informal, um em Al Quoz e outro em Bastakia.
O que há mais? A intelectual Sharjah International Art Biennial, que, a cada dois anos, fica lotada de trabalhos assinados por artistas internacionais. Em março de 2007, o primeiro DIFC Gulf Art Fair trouxe a Dubai trabalhos de todas as partes do mundo. A cidade também recebe leilões recordes da Christie, enquanto se prepara para se tornar destino de franquias dos museus Guggenheim e Louvre. Como se não bastasse, uma Vila Cultural, de um bilhão de dólares, está planejada para Dubai.
Intrigantemente, ela vai misturar apartamentos de luxo com pátios retrô repletos de arte e torres – em uma tentativa de se transformar em centro das atividades artísticas da região. Dubai está apostando seriamente no mundo das artes. Mas, ainda que a algazarra de atividades pareça promissora e siga bem, a cidade está ainda no processo de desenvolver uma coesa e única identidade artística.
Como a vasta maioria dos residentes em Dubai é de estrangeiros, os trabalhos que podem ser encontrados na cidade são uma grande e diversa mistura. Aqueles que buscam a genuína arte dos Emirados vão, provavelmente, ficar decepcionados. Tirando as 'bugigangas' para turistas, encontradas pelos shoppings da cidade, há pouca arte contemporânea a se revelar fora das – fascinantes, mas não-freqüentes – mostras de estudantes locais.
É muito mais provável que você volte para casa levando uma pintura a óleo de um cavalo ou falcão. Se isso for tudo o que você procura, esta é a cidade certa. A arte indiana é extremamente popular e bem servida por estabelecimentos como o 1x1 Art Space e o Bagash Gallery – que conseguem programar diversificadas exposições de obras contemporâneas de todo o subcontinente, variando de instalações e peças conceituais até retrospectivas de grandes nomes como M. F. Husain.
A Red Gallery, por sua vez, revive o antigo romance de Dubai com as obras do extremo Oriente, com foco na arte vietnamita. Amantes da arte mais contemporânea seguem a direção das galerias em Al Quoz, uma propriedade industrial abandonada atrás do Mall of the Emirates. Lá, você vai encontrar mostras trabalhadas por curadores profissionais, em galpões restaurados, que oferecem arte de alto padrão do Oriente Médio e da África do Norte. Para pintura contemporânea, fotografia e instalações, os endereços são as galerias B21 e Third Line. Localizadas a alguns minutos uma da outra, têm uma rica oferta de obras e funcionam como um motor de trabalhos sensíveis e inovadores.
Perto dali, você também encontra a Courtyard, dirigida pelo imigrante iraniano Dariush Zandi que, regularmente, promove e expõe um pouco do melhor trabalho persa moderno – ao longo de uma rua animada, agradável e caótica, repleta de todos os estilos de arte e artesanato. Mais distante do burburinho, há uma novidade na cena de Al Quoz no formato da Meem Gallery, que está trazendo o toque da arte árabe contemporânea para a região, misturando o antigo e o novo em exposições empolgantes e extremamente instrutivas, dedicadas a obras islâmicas e pré-islâmicas.
Descendo pela enseada, fica o distrito histórico de Bastakia, casa do Dubai Museum e de poucos prédios que sobraram. Aqui, entre as torres e os prédios de coral concreto, a XVA e a Majlis Gallery apresentam espetáculos deartistas contemporâneos e clássicos. A visita a esse distrito é um imperativo a qualquer turista.Os dois excelentes espaços, mais voltados para o visitante casual do que os estabelecimentos de Al Quoz, também contribuem para o desenvolvimento artístico da cidade.
Outras pequenas galerias estão começando a surgir nesta área também. No geral, esta enorme variedade de trabalhos expostos pela cidade reflete a sua composição cosmopolita, que é mais do que uma simples investida nos limites da arte contemporânea. Como em todos os assuntos culturais em Dubai, há diretrizes que não podem ser transgredidas e fronteiras que não devem ser ultrapassadas. Alguém poderia argumentar que arte de valor não combina com um ambiente tão pré-determinado, e que a arte regional poderia desafiar questões locais e gerar debates. Mas isso é improvável.
Como nos filmes que estão em exibição nos megacomplexos de cinema, não há nudez, sentimentos anti-religiosos e críticas a Dubai e a seus líderes. Muitos artistas vão dizer a você que eles não gostariam de desafiar esses limites e que estão felizes em trabalhar dentro deles – certamente, para muitos artistas oriundos das comunidades artísticas duramente policiadas de Tehran ou da Arábia Saudita, Dubai é um oásis de liberdade e de possibilidades.
Apesar das restrições, as coisas estão definitivamente mudando à medida que um número crescente de jovens artistas, dos Emirados ou estrangeiros, ganham renome. Pode-se esperar que a arte em Dubai comece a ecoar com mais significado e substância. Com um mercado jovem, rico e cosmopolita puxando o comércio de arte adiante, a expansão e o entusiasmo permanecem revigorantes e ilimitados.
Copyright 2007 - Time Out Brasil e Grupo Estado. Todos os direitos reservados.