| |
Cidade do crime
O arrojado herói fictício da escritora Lyndsey Davis, Marcus Didius Falco, luta contra o crime em caput mundi e por todo o império de Vespasiano. See Delphi and Die (ilustrado à direita), o último da série Falco, foi publicado em junho de 2005. Nele, ela explica o tipo de crime que atormentava a antiga Roma: era uma cidade dominada pelo crime após ser construída – desde o momento em que Rómulo pulou a semi-construída muralha da cidade e matou seu irmão gêmeo, Remo, numa raiva enciumada. Ninguém prendeu Rômulo, que durante anos foi um governante venerado, até ser ‘levado ao céu numa nuvem' (seguramente, um desaparecimento em circunstâncias suspeitas).
No período em que este guia estava sendo escrito, o escritor satírico Martial fazia piadas falando de um sábio que fez seu testamento antes de se aventurar a sair para jantar. Nos tempos imperiais, os cidadãos eram poupados das gangues de assassinos que os senadores contratavam na era republicana para aterrorizar seus oponentes políticos e quem quer que ficasse em caminho. Mas onde havia iluminação, os ladrões e agressores costumavam destruir as lanternas. Quem podia pagar só saía na rua com guarda-costas. O Imperador Augusto promoveu melhorias, em parte não intencionais: ele criou os vigiles, originalmente um corpo de bombeiros.
Sua tarefa era patrulhar as ruas de noite – numa cidade onde todos usavam fogo para cozinhar e iluminar, o principal receio eram os incêndios. No entanto, sempre que patrulhavam as ruas escuras os vigiles encontravam ladrões e os prendiam, tornando-se assim uma força policial. Eles eram ex-escravos e, sem dúvida, seus métodos eram enérgicos e brutais; provavelmente espancavam as pessoas até que confessassem (e talvez elas confessassem, culpadas ou não). Agora os visitantes podem ver seus descuidados equivalentes modernos, ainda chamados vigili, escondendo-se em seus carros de patrulha para fumar um cigarro ou conversando com as mulheres como parte de seu valioso trabalho na comunidade.
Alguns crimes nunca mudam: como agora, a maioria dos crimes da antiga Roma provavelmente eram domésticos (Rômulo marcou o padrão). Ser um imperador podia ser perigoso, embora até os assassinatos palacianos freqüentemente acontecessem por questões familiares; pense em Cláudio, a quem sua esposa, Agripina, serviu cogumelos venenosos. A punição era diferente: a prisão de longo prazo não era usada. Para os crimes civis, os transgressores tinham de compensar os lesados, geralmente com dinheiro. Por crimes capitais, as classes mais baixas tinham de morrer às mãos dos gladiadores ou atirados aos leões na arena, enquanto os condenados de classes elevadas podiam cometer suicídio ou fugir.
O poeta Juvenal nos dá uma imagem vívida do crime romano, incluindo falsificadores de testamentos e mulheres envenenando os maridos pelo dinheiro. A presença de escravos acrescentava um frisson extra: enquanto os escravos leais defendiam o lar, os insatisfeitos eram os primeiros suspeitos quando alguém morria em casa de forma não-natural. As preocupações diárias da maioria das pessoas devem ter sido bem menos graves: evitar o roubo de suas roupas nos banhos públicos; e manter os ladrões fora de suas casas, numa cidade cheia de varandas acessíveis e janelas abertas no tempo quente. Mesmo os supostamente cidadãos de boa reputação não eram livres para instalar torneiras sem licença para suprimento de água ou drenar os aquedutos: em teoria, a Roma antiga era uma cidade que era perfeitamente regulada.
|