| |
Trastevere e o Gianicolo
Atravesse o rio Tibre para ver um pedaço autêntico da ‘verdadeira Roma’
Quando você suspeitar que está prestes a ter uma crise de Síndrome de Stendhal – por exemplo, por sobrecarga cultural, que, se não tratada, pode levar a sérias conseqüências –, basta atravessar o rio. As coisas ficam diferentes quando vistas da margem de Trastevere. No começo a área parece ser normal, mais pitoresca e medieval do que clássica. Aqui os antipasti se proliferam no lugar de cryptoportici, as adegas tomam o lugar dos mausoléus e as ruínas são poucas. Você pode se sentar ao sol sem se sentir culpado por não ter ido ver aquela última catacumba. Afinal de contas, você está de férias, certo? Trastevere - uma corruptela da trans tiberim, ‘do outro lado do rio Tibre’ – se parece bem com a imagem idílica da ‘típica Roma’ que você tinha em mente antes de vir para a Cidade Eterna: palazzi de cor ocre descascada e telhados beges, adegas onde o vinho branco da casa tem o gosto do néctar dos deuses, e modestas trattorias que servem o que estiver cozinhando em fogo brando na panela da mamma. Pode parecer mais pobre, mais genuíno e mais apelativo que a outra margem. Na verdade, muitos estrangeiros desenvolvem uma paixão pelo local – os mais ricos a ponto de obterem um pequeno pied-à-terre e uma mesa cativa em algum bar. Este mesmo fato fez com que os preços subissem e os moradores locais se retirassem do que hoje se pode considerar uma área de aluguéis caros da cidade. Adegas e restaurantes badalados cresceram rapidamente entre açougues, padarias, lojas de lustres e vários outros comércios medievais que ainda existem no térreo das oficinas. Ainda assim, Trastevere guarda muito de seu charme vulgar. Os moradores que ainda moram aqui têm um charme peculiar, embora outros romanos digam que, desde épocas antigas, os trasteverini tenham um problema de comportamento. Nos últimos cem anos mais ou menos, desenvolveu-se uma forte segregação no festival Noiantri (‘nós, os outros’), que acontece nas duas últimas semanas de julho, celebrando as características que marcam as diferenças dos trasteverini – sob o ponto de vista deles, superiores aos romanos que moram nas sete colinas do outro lado do rio Tibre. Estes romanos de verdade – como os trasteverini gostam de se denominar – são orgulhosos e rígidos, notavelmente inteligentes e ágeis. Eles se alegram com um saudável senso de humor e defendem com firmeza seu dialeto da homogeneização e do italiano da TV nacional. Seus poetas favoritos, Trilussa e Bella, combinam esses atributos em divertidos versos burlescos. Os trasteverini clamam descendência da dinastia de escravos, incluindo os marinheiros do século 1 d.C. atraídos para a parte de cima do rio, no porto em Ostia, com a promessa de maiores salários como operadores da grande lona que protegia os espectadores do sol no Coliseu. Durante o período imperial, uma grande parte da trans Tiberim era agrícola, com fazendas, vinhedos, chácaras e jardins que existiam para o prazer dos Césares. Mais tarde, comunidades de comércio sírias e judaicas se estabeleceram nesta área antes de se mudarem, na Idade Média, para a área do Ghetto , do outro lado do rio. Trastevere era um distrito de trabalhadores na Roma papal e continuou assim até depois da Unificação. O trânsito nas ruas estreitas é caótico, apesar das severas restrições aos carros à noite. Senhoras romanas em casacos de pele vindas do outro lado do rio Tibre instintivamente colocam suas bolsas fora do alcance de oportunistas.
|