Introdução
A maior galeria do mundo está ao seu redor
A arte de Roma inspirou visitantes por séculos, muitas vezes causando convulsões de deleite e espanto. Talvez os viajantes mais suscetíveis sejam os jovens artistas, que se esforçaram para capturar em papel os tesouros visuais da Cidade Eterna. Observação cuidadosa e desenho paciente dos exemplos reverenciados de arte antiga em Roma eram fundamentais no treinamento artístico do final do século 15 ao 19.
A sucessão de ruínas clássicas e estátuas constituíam o plano de estudos. Artistas que perfeitamente assimilaram o cânone clássico acreditavam que tinham o embasamento para a grandiosidade. Eles copiavam fanaticamente o melhor do passado e esperavam admiração por seus esforços. Em 1548, o pintor português (e amigo de Michelangelo) Francisco de Hollanda refletiu sobre sua estada em Roma, uma década antes: ‘Quais edifícios imorais ou estátuas majestosas desta cidade eu não roubei para levar embora, sem carro ou barco, nestas finas folhas de papel? Que pintura em estuque ou arabescos é descoberta nas grutas e antiquários de Roma... mas o melhor delas está desenhado nos meus cadernos?’.
Se Hollanda afirmava ser completo, ele não estava só: a maioria dos que viajavam a Roma – incluindo não-artistas – fizeram uma parada estudando ou desenhando arte antiga ou renascentista em sua estada. Apesar de hoje em dia os turistas preferirem capturar a arte do passado com uma câmera digital mais do que com caneta e caderno de desenho, olhando a arte de Roma ainda oferece muito prazer e uma grande educação. A arte em Roma é tão prazerosa e edificante porque engloba qualidade superlativa e alcance cronológico.
Que a cidade mostre arte cobrindo quase 3 mil anos é incrível, mas que a maioria tenha sido produzida aqui mesmo é ainda mais surpreendente. Nenhuma outra cidade – nem mesmo os grandes centros de museus de Londres, Paris e Nova York, podem se gabar tanto. Não obstante, muitas das maiores pinturas e esculturas ainda estão em seus locais arquitetônicos originais, oferecendo um contexto que museus não reproduzem. Ainda hoje, como no século 16, visitantes podem achar Roma desorientadora. Afinal de contas, não há nenhum Louvre para oferecer uma parada no museu para compras, nem uma Uffizi para apresentar uma pesquisa abrangente sobre pintura italiana.
Além disso, o emaranhado da cidade – com uma dúzia de praças ‘principais’ – pode frustrar o viajante mais intrépido. Com um pouco de planejamento, bons sapatos e senso de aventura, o turista pode experimentar o espectro único de passado e presente de Roma: monumentos esplêndidos e espaços íntimos, e a riqueza em camadas de cem gerações de artistas, patronos e colecionadores que se regozijaram na certeza de que Roma era o centro do mundo civilizado. Embora a arte de Roma tenha acompanhado as necessidades da Igreja Católica por quase dois milênios, a influência mais forte tem sido sempre o forte legado do mundo antigo.
Em poucas cidades os vestígios do passado são tão palpáveis. Roma antiga, como caput mundi, colheu ou criou muito da melhor arte da antigüidade. Aqueles que sucessivamente saquearam ou ocuparam a cidade – de Alarico, em 410, a Napoleão em 1808 – saquearam muito deste patrimônio, mas a fração que sobreviveu continua impressionando. Obeliscos egípcios ainda marcam as principais praças e, apesar de não haver muitos originais gregos hoje em Roma, o milagre da arte grega pode ser estudado e apreciado em inúmeras cópias romanas.
Estes mármores – freqüentemente cópias de originais em bronze há muito destruídos – exibem o talento grego para dotar o corpo de beleza, propósito e senso de movimento. O ideal clássico, combinando naturalismo com idealização do corpo, ofereceu um padrão de beleza difícil de ignorar. Embora a escultura grega mais famosa em Roma seja o Trono de Ludovisi – a peça central da coleção da família Ludovisi abrigada no Palazzo Altemps –, muitos trabalhos são de natureza transitória, entre grego e romano. Um exemplo desta categoria é o volumoso Torso do Belvedere – um físico sobre-humano de aproximadamente 50 a.C. que inspirou Michelangelo –, agora abrigado no Museu Vaticano Pio Clementino.
‘Os etruscos produziram uma arte exuberante, violenta e sensual’
Os etruscos, o povo pré-romano que dominou a Península Itálica do século 4 a.C. ao século 3 a.C., produziu uma arte exuberante, violenta e sensual. Um dos museus mais agradáveis em Roma é o recém-renovado Villa Giulia , que oferece um acervo de arte etrusca, incluindo esculturas de terracota em tamanho natural do Templo de Apolo no Veio e um delicado sarcófago de um casal.
Igualmente importante é a obra etrusca conhecida como a Lupa Capitolina (a mulher-lobo capitolina), um tesouro em bronze que pode ser encontrado nos Musei Capitolini. A partir do século 3 a.C., os romanos basearam nesse legado grego e etrusco uma febre de construções sem precedentes. Novas técnicas estruturais – notavelmente o arco e a tecnologia de concreto – deram origem a construções espaçosas e audazes.
Os romanos também foram responsáveis por formas monumentais que nublam os limites entre arquitetura e arte, como o arco triunfal ornamentado com relevos (em especial os de Sétimo Severo e Tito no Fórum e o de Constantino próximo ao Coliseu) e a coluna ornamentada com faixa em espiral (Colonna di Traiano – Coluna de Trajano, Colonna di Marco Aurelio). Outra inovação romana em menor escala foi o busto de retrato, que registrava características faciais dos grandes e medianos com notável honestidade. Grande parte da arte clássica está concentrada em poucos museus principais. O Palazzo Altemps, que abriga a escultura Suicídio do Gaulês, é uma primeira parada ideal.
O Palazzo Massimo alle Terme contém importantes obras da escultura e pintura romanas, inclusive um belo Augusto e duas cópias do Discóbolo de Miron. As grandes coleções dos Musei Capitolini apresentam o Gaulês Agonizante e bonitos centauros em mármore negro da villa de Adriano . E, apesar de o tamanho da coleção clássica dos Museus Vaticanos ser desencorajador, um trabalho helenístico nunca desaponta: o Laocoonte mostra um homem poderoso e seus filhos lutando por suas vidas contra serpentes, talvez a escultura mais dinâmica na história da arte.