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Contexto - Roma Hoje
   
Roma Hoje

Roma tem seus defeitos, mas o amor dos romanos por sua cidade permanece eterno Pergunte a um taxista sobre o estado da cidade hoje, e provavelmente sua viagem – mesmo que seja de um lado a outro de Roma – não será suficiente para ouvir a ladainha de aflições: o aumento de carros particulares a cada ano, chacoalhando sobre o calçamento da cidade; os níveis estratosféricos de poluição; a interrupção do trânsito quando o papa ou o presidente, ou algum VIP estrangeiro, percorre as ruas em alta velocidade e com muita segurança ou quando manifestantes marcham pelo centro da cidade; o caos, e às vezes violência, que cerca os jogos de futebol importantes; as greves imprudentes dos transportes públicos que deixam a cidade a pane; os traiçoeiros buracos; as intermináveis pavimentações; as excursões de ônibus que despejam ainda mais pessoas nas estreitas ruas medievais.



Mas pergunte se deixaria Roma para viver em outro lugar, e ele vai olhá-lo como se você fosse louco: em qual outro lugar uma pessoa sã viveria? Alguns dias a cidade parece presa numa loucura própria. Analise um dia específico: domingo, 6 de março de 2005. Roma ficou parada. O corpo de Nicola Calipari – o agente secreto morto por soldados norte-americanos num bloqueio em Bagdá enquanto levava uma refém libertada para o aeroporto – é carregado à piazza Venezia coberto pela bandeira italiana; milhares de italianos chorosos estão aglomerados no monumento a Vitório Emanuel para prestar homenagem ao novo herói antes de seu funeral de Estado.



Na esquina, na via dei Fori Imperiali, um bispo está espargindo água benta sobre alguns veículos – um caminhão de lixo, um ônibus, um reboque, algumas motos de polícia e táxis puxados a cavalo que estão de passagem. É a festa de Santa Francesca Romana. Normalmente uma longa procissão de carros passa por sua igreja no Fórum, mas naquela ano, os níveis de poluição estavam tão altos, que os carros foram banidos da cidade; a lei  é suspensa para os veículos municipais, que representam os motoristas católicos. Enquanto isso, do outro lado do rio, no Vaticano, milhares de peregrinos esperam ver o papa no Angelus semanal, acenando para fotografias dele em telões: João Paulo II, 84 anos, está do outro lado da cidade se recuperando de uma traqueotomia no hospital Gemelli, onde outra multidão acena para ele abaixo de sua janela, observada por muitas equipes de TV.



Algumas horas depois, o barulho dos helicópteros invade os céus: eles vigiam as multidões que invadem as ruas após os jogos de futebol da tarde de domingo atrás de encrenca. Esta confusão de eventos é normal em Roma: todo dia é extraordinário nesta idade extraordinária. Some a eventual interrupção do transporte público, talvez um pânico de segurança ou dois, uma visita de Estado ou mesmo uma grande tempestade, e se sentirá como se estivesse entrando no caos de um filme de Fellini. Para os romanos isso é extremamente cansativo. Muitos suspiram quando computam o custo de vida na Caput Mundi. Para os turistas, por outro lado, é tudo pitoresco; e um ótimo momento para aproveitar a cidade eterna. Após a limpeza para o Jubileu (2000) a cidade ficou espetacular.



Dos adoráveis tons pastéis de amarelo, cinza, pêssego e creme nos monumentos históricos aos principais novos museus e projetos de edifícios contemporâneos, Roma limpou a fuligem e sacudiu a poeira após décadas de negligência. A reviravolta começou em 1993, quando Francesco Rutelli venceu a Prefeitura com apoio do Partido Verde e recebeu uma grande ajuda do governo central, da mesma tendência de centro-esquerda. Ele deu excelente uso à verba para o Jubileu: deu início as extensas escavações nos sítios arqueológicos da via dei Fori Imperiali; fundos foram alocados para a restauração de igrejas e monumentos; o transporte inadequado da cidade também foi melhorado.



O Ministério da Cultura também ajudou, reabrindo o Domus Aurea, a Galleria Borghese  e as Terme di Diocleziano. Mas a administração Rutelli foi além de restaurar o velho: rompendo com um passado que via a arquitetura contemporânea na Cidade Eterna como sacrílega, iniciou trabalhos importantes que incluíram o MAXXI de Zaha Hadid, um centro de convenções no EUR pelo arquiteto italiano Massimiliano Fuksas, o magnífico Auditorium de Renzo Piano, com três salas de concerto, e o pavilhão para o Ara Paris assinado pelo norte-mericano Richard Meier.


O prefeito amante de jazz e cinema deu alta prioridade à cultura.

O trabalho de manter as coisas funcionando coube, a partir de 2001, a Walter Veltroni, prefeito popular de Roma (reeleito em 2006). Partidário da Democratici di sinistra – o antigo Partido Comunista – o prefeito amante de jazz e cinema continua dando alta prioridade à cultura. Mas, ao contrário de Rutelli, Veltroni, teve que negociar com um governo nacional de centro-direita e um governador da Região do Lazio – Francesco Storace – ligado ao partido Alleanza Nazionale, herdeiro de Mussolini. Veltroni esperava que as eleições regionais de abril de 2002 mudassem o equilíbrio do poder romano. Nada aconteceu.



Ser a sede do governo nacional é uma faca de dois gumes para a cidade, especialmente quando a Casa della Llibertá, coalizão liderada pelo magnata da mídia Silvio Berlusconi, assumiu o poder em 2001. Descrito – mais admiradoramente que caluniosamente – como um showman, Berlusconi instintivamente compreendeu a importância da imagem e qualidades abstratas como beleza e tradição, para organizar cenários fotogênicos para suas fotografias internacionais: o cineasta Franco Zeffirelli foi contratado como diretor de cena para a assinatura do segundo Tratado de Roma, em outubro de 2004 no Campidoglio, que firmou uma Constituição para a UE ampliada (agora com 25 membros).



Mas a cidade se tornou palco para protestos freqüentes (geralmente amargos) contra o governo de Berlusconi e contra a presença de 3 mil soldados da Itália no Iraque: bandeiras com o arco-íris da paz tremularam em quase todas as janelas na primavera de 2003, quando cerca de 3 milhões de pessoas marcharam pelas ruas. O prefeito Veltroni se assegura que Roma continue a ser uma capital internacional pela defesa dos direitos humanos, iluminando o Coliseu cada vez que uma sentença de morte é comutada em algum lugar do mundo e sediando conferências de Glocalização (sic) com a participação de seus pares do mundo todo. Vigílias à luz de tochas marcam eventos significantes.



Assim como celebrações vívidas festejam anualmente em 21 de abril a fundação da cidade, em 753 a.C. (2007 é o 2.758º aniversário de Roma), a cidade tem vários eventos de longa data: a Estate Romana continua trazendo artistas de nível internacional para apresentações ao ar livre; no outono, o festival RomaEuropa apresenta dança, teatro e música de vanguarda. Uma nova data no calendário é a bem-sucedida Notte Bianca, em setembro, quando os romanos são estimulados a ficar acordados e festejar nas ruas a noite toda, ou visitar museus e sítios arqueológicos iluminados – embora todos tentem não lembrar a tempestade bizarra às 3h da manhã que caiu na capital durante  a Notte Bianca de 2003, um prelúdio para as 12 horas de apagão nacional.



Talvez os eventos mais memoráveis dos últimos anos tenham sido os shows de rock em alguns dos mais incríveis locais ao ar livre da cidade, incluindo a Piazza del Popolo, o Forum e o Circo Massimo, onde romanos e turistas tiveram apresentações gratuitas de Paul McCartney, Santana, Eminem, Simon & Garfunkel e Sting. Seguindo a filosofia de que ‘se a cidade pertence ao povo, então o povo vai cuidar de sua cidade’, a idéia é deixar os jovens virem dos subúrbios para assistir a um show gratuito num local antigo e, talvez, se sintam menos inclinados a grafitar fachadas renascentistas quando quiserem ‘se expressar’. Não muito tempo atrás, seria impensável meio milhão de pessoas dançando rock no Circo Massimo. Mas muitas coisas mudaram Roma para melhor.



Tome como exemplo a proibição de fumar: os italianos podem tragar em particular – e, por desespero, em qualquer esquina –, mas você não encontrará ninguém fumando num trem ou num prédio público, ou, surpreendentemente, num restaurante ou bar. Apesar do reduzido número de sites em sua língua natal, os italianos tomaram a internet – a banda larga em particular – como vingança. Após muitos anos de feroz oposição ao uso do cinto de segurança, a maioria dos italianos agora se abotoa nas estradas – embora ocasionalmente se neguem a usar cinto na cidade. As ruas de Roma, tráfego à parte, estão mais agradáveis para se caminhar: lojas de junkfood estão saborosamente camufladas, água fresca para beber está disponível em fontes em quase todas as praças, orelhões e outros equipamentos urbanos raramente estão vandalizados... e apenas turistas ficam bêbados ou vestem shorts.


‘A globalização está arruinando o centro storico’



Não só a Roma turística e a Roma Capitale mudaram, mas também o cotidiano dos romanos. Muitas frustrações evaporaram, mas o aumento da renda e o conseqüente desejo por uniformidade internacional significam que algumas características romanas estão sendo postas de lado. O quase monopólio das tratorias locais entrou em colapso, minado por lugares mais sofisticados. Tradicionais Vini e Olii – espeluncas onde se bebia vinho Castelii enquanto o proprietário jogava algo para se comer – são mais difíceis de encontrar. O Campo de Fiori – outrora um mercado típico – agora é invadido por mascates de produtos de imitação de couro durante o dia e se torna um grande bar à noite. Lojinhas de esquina estão sendo forçadas a sair por supermercados.


A globalização tem arruinado o centro storico, onde restaurantes e negócios familiares estão sendo expulsos por redes internacionais. Roma é uma mistura ímpar: milênios de história com suas glórias orgulhosamente à mostra; uma cidade do século 21 vivendo às sombras de uma teocracia medieval; um tecido urbano medieval lutando para atender às demandas de cidadãos modernos; uma cidade que valoriza sua herança, mas que deseja os frutos do consumismo global. A popularidade contínua de Roma – de fato a verdadeira natureza da cidade – vai depender de sua habilidade em manter este esquilíbrio.


     

 





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