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Contexto - Paris Hoje

Introdução


Tempos interessantes

Primeiro foi o ‘non’ à Constituição européia. Depois, o ‘non’ do Comitê Olímpico Internacional para as Olimpíadas em Paris em 2012. Como se não bastasse, o bilionário empresário François Pinault, frustrado com atrasos burocráticos, abandonou Paris e levou seu novo museu de arte contemporânea para Veneza.

No último ano, as coisas não correram muito bem em Paris – na verdade, não correram bem para o presidente Jacques Chirac. A rejeição do eleitorado francês à Constituição da UE, em junho de 2005, foi, acima de tudo, um voto de protesto contra a falta de atuação do presidente – embora os parisienses tenham votado diferente do resto do país, o que não é inédito, com 66% a favor da Constituição.


Na campanha para o referendo de 2005, o governo de Chirac não conseguiu convencer. O desemprego teima ser um dos mais altos da Europa ocidental (cerca de 10%), enquanto um déficit público pesado (que passa do limite estipulado na UE) forçou a privatização parcial, altamente impopular, da empresa de motores aéreos Snecma, seguida pela France Télécom e pela Gaz de France. Além disso, a Loi Fillon, uma lei educacional de reestruturação do baccalauréat (bacharelado), deflagrou protestos por um mês, além da ocupação dos lycées, sendo que muitos em Paris terminaram em violência.


Depois de 55% do eleitorado ter votado contra a Constituição européia, Chirac não teve outra opção a não ser agir. Não foi surpresa que seu bode expiatório, o primeiro-ministro Jean- Pierre Raffarin, renunciasse. Um mês antes, Raffarin havia suspendido o feriado bancário de Pentecostes (medida para levantar fundos para os idosos), causando greves generalizadas. Chirac substituiu o impopular Raffarin por seu fiel escudeiro, Dominique de Villepin, antes conhecido como o ministro das Relações Exteriores que disse 'não' à guerra do Iraque. Villepin nunca ocupou um cargo eletivo – é um diplomata de carreira e poeta com obras publicadas. Seu compromisso foi inicialmente cumprido com problemas, porém as pesquisas apontam que ele vinha obtendo uma popularidadeconsiderável, e sua promessa de fazer do emprego a prioridade nacional foi colocada em prática, principalmente na medida chamada contrat nouvelle embauche (CNE). Esse novo contrato de trabalho flexibiliza as rigorosas leis trabalhistas francesas e permite que as empresas com menos de 20 funcionários demitam sem aviso prévio durante os dois primeiros anos.


A recém-descoberta credibilidade de Villepin faz dele forte candidato para substituir Chirac nas eleições gerais de 2007 (presumindo que o atual presidente vá se afastar). As pesquisas recentes, entretanto, indicam que Nicolas Sarkozy é o homem que pode tirar o terceiro mandato de Chirac, do UMP (centro-direita). Visto com suspeita por Chirac, Sarkozy, 51 anos, não esconde suas ambições presidenciais, nem seu desdém pelo rival Villepin.


Embora tenha sido preterido para o cargo de primeiro-ministro, parece satisfeito com a troca de cadeiras após o referendo. No fim de 2004, o energético Sarkozy foi eleito presidente do UMP, posição supostamente incompatível com o cargo de ministro da Fazenda. Forçado a sair do governo, teve de esperar até junho para ter a sua fatia do bolo. Chirac o indicou para assumir a pasta do Interior e o Ministério de Estado (praticamente um vice-primeiro-ministro), além de líder do partido. No cargo do ministro do Interior, Sarkozy prometeu combater a imigração: não hesitou em repatriar vários líderes radicais islâmicos quando explodiram as bombas em Londres, em julho de 2005.


Um desafio ainda maior – e correlacionado – surgiu em novembro de 2005. Tumultos violentosse espalharam pelo país por várias noites consecutivas, e depósitos, restaurantes e milhares de carros foram queimados. Sarkozy reagiu como sempre: linha dura, enviou todos os esquadrões policiais que pôde (alguns até levaram tiros). Mas seus comentários de que os manifestantes eram 'gentalhas' que deveriam ser varridos do banlieue (bairros periféricos), onde a violência foi pior, foram muito criticados. Não foi só o popular Sarkozy que recebeu críticas; os políticos em geral perderam pontos. No ano passado, tanto Chirac quanto o prefeito de Paris, o esquerdista Bertrand Delanoë, perderam seu lugar na lista das 50 personalidades favoritas da França. A pesquisa bienal Ifop colocou o ex-jogador de tênis e atual estrela do rock Yannick Noah no topo da lista, enquanto a jornalista do Libération seqüestrada no Iraque, Florence Aubenas, apareceu em 12º. Durante os 157 dias de cativeiro, a partir de janeiro de 2005, Aubenas e seu guia, Hussein Hanoun, apareciam constantemente na mídia como parte da campanha por sua libertação.


A queda de Delanoë da posição de figura mais querida do país foi uma desfeita para o prefeito parisiense com pretensões presidenciais. Se o non aos Jogos Olímpicos foi um baque para Chirac, foi devastador para Delanoë, que colocou grande parte de sua energia na campanha de Paris 2012. Mantendo sua imagem otimista, ele decidiu impressionar o Comitê Olímpico Internacional transformando o Champs-Elysées – só por 24 horas – em um espetáculo esportivo, com 700 metros de pistas de atletismo, quadras de tênis, piscina e arenas eqüestres. Isso não foi o suficiente para impressionar o COI e, apesar de favorita, Paris perdeuna votação final pela terceira vez em 20 anos. A mídia francesa acusou a vencedora Londres de fazer lobby e lamentou uma decisão que pareceu mais política que esportiva.


Apesar dessa derrota, Delanoë é uma figura benquista, cuja última inovação cultural populista, a Nuit des Musées (noite de entrada gratuita nos museus de Paris), foi um sucesso, assim como as já bem-estabelecidas Nuits Blanches e a Paris Plage. Enquanto isso, os projetos de desenvolvimento urbano estão em pleno vapor. Uma grande renovação da antes abandonada região da Gare d'Austerlitz continua em obras. No final de 2006, esta agitada área ao redor da Bibliothèque Nationale de France François Mitterrand abrigará quatro universidades, uma piscina flutuante ao ar livre no Sena e uma passarela ligando-a ao Parc de Bercy. O projeto seguinte do prefeito seria a maior reforma já feita nos mal-cuidados jardins de Les Halles e em seu shopping center subterrâneo, com a ajuda do arquiteto parisiense David Mangin.


Delanoë também estabeleceu como prioridade o transporte público e o trânsito, criando várias linhas de ônibus e ciclovias, com previsão de uma nova linha de bondes elétricos. A princípio destinada a cobrir o perímetro da cidade (só dentro do Périphérique), a linha inicialmente começa no sul (perto de Maréchaux) e serámargeada por gramados e milhares de árvores. Projetos futuros incluem a criação de mais áreas verdes e a extensão de várias linhas de metrô já existentes para se juntar à nova linha de bonde a ser construída no banlieue.


Ao mesmo tempo em que reconhece a necessidade de um crescimento urbanístico, ele sabe que Paris depende de suas heranças – e que a nova doutrina do planejamento urbano anunciada em 2004 tem uma série de regulamentos destinados a proteger o patrimônio histórico da capital francesa. A preservação é a base do Plan local d'urbanisme (PLU), que inclui 4 mil prédios e 1,5 mil parques, jardins e cemitérios sob proteção estatal. O PLU contraria os desejos de Delanoë de construir arranha-céus em Paris, estipulando que as torres não ultrapassassem 37 metros. O preço de um protecionismo tão rígido é a suposta falta de dinamismo na capital.


Sob esse prisma, a perda do novo museu de arte contemporânea de François Pinault foi um golpe significativo na cidade. Colecionando arte há mais de 30 anos, Pinault, 70 anos, orgulha-se de seu importante acervo de 2,5 mil obras doséculo 20. Após encontrar um local nobre na Ile Séguin, no meio do Sena, na região sudoeste da cidade, Pinault contratou o arquiteto japonês Tadao Ando para projetar um museu absolutamente futurístico. Programado para ficar pronto em 2005, o projeto foi boicotado por constantes obstáculos da burocracia e intermináveis atrasos na obtenção das alvarás de planejamento. No começo de 2005, a construção ainda não tinha nem começado. Com toda razão, François Pinault insistiu em executar o projeto ainda em vida – e, para tanto, simplesmente comprou o Palazzo Grassi, em Veneza, e levou sua coleção para a Itália.


A experiência de Pinaut está longe de ser a única. Embora Paris seja famosa por seus museus, os projetos culturais novos estão normalmente sujeitos a um período de longa gestação.


Em 2006 finalmente foi inaugurado o novo Musée des Arts Premiers, o projeto preferido de Chirac, prometido para 2004, enquanto que a tão esperada Cité de l'Architecture et du Patrimoine no Palais de Chaillot, na place du Trocadéro, inaugurada em março de 2007. O Musée de l'Organgerie, casa das grandiosas Ninféias de Monet, não reabriu em 2001 como programado por causa da descoberta de um painel do século 15 durante a reforma.


A grande novidade de 2005 foi o novo centro da Cinémathèque Française (ver pág.294, Cinemateca) no prédio Frank Gehry há muito abandonado, na extremidade do Parc de Bercy. O instituto nacional de cinema da França tem hoje quatro salas, um espaço para exposições temporárias e, pela primeira vez em quase uma década, um musée du cinéma – para que os cinéfilos apreciem uma das mais prolíficas coleções de objetos, roupas e fotografias ligados ao cinema. O público dos cinemas continua crescendo em Paris (29,1 milhões de ingressos vendidos em 2003), embora a tendência seja em direção às salas multiplex (em comparação com dez anos atrás, Paris tem menos estabelecimentos, porém mais salas). Na verdade, o sucesso dos multiplex ameaça os cinemas menores – o Gaumont Grand Écran na place d’Italie fechou eo futuro do histórico Grand Rex é incerto. Felizmente, a Ville de Paris conseguiu fundos para ajudar a revitalizar vários cinemas independentes. Esse apoio é essencial, dada a explosão dos provedores de televisão a cabo e internet.Em 2005, o lançamento da télévision numérique terrestre (TNT) colocou 14 canais à disposiçãopelo preço de um adaptador digital, paralelamente ao lançamento do Pink TV, o primeiro canal gay da França.


Talvez a maior surpresa da mídia tenha sido a chegada das equipes de Hollywood aos monumentos mais famosos da cidade, uma atitude sem precedentes na história de Paris. O ministro da Cultura, Renaud Donnedieu de Vabres, descobriu que 62% dos turistas vão a Paris depois de ver a capital francesa na telona do cinema. Então, formou-se uma comissão para promover os castelos, parques e museus do país nos filmes. Entre os beneficiários estava Sofia Coppola, que filmou o Maria Antonieta em Versailles, e Ron Howard, que passou várias noites no Louvre dirigindo Tom Hanks e Audrey Tautou em O Código da Vinci. No entanto, Paris não teve de esperar pela estréiado filme de Howard para colher os frutos do sucesso do romance do autor britânico Dan Brown. O best-seller, que tem Paris como principal cenário, já deu margem à criação de pelo menos três empresas que oferecem o tour parisiense de O Código da Vinci. Cansada de responder às perguntas sobre os detalhes da ficção, a igreja de St-Sulpice pregou um cartaz na fachada repudiando o conteúdo do livro. No entanto, muitos acreditam que a popularidade do romance seja em grande parte responsável pela volta do turista norte-americano a Paris (uma alta de 7,1% em 2004 em relação ao ano anterior), depois da queda provocada pela guerra do Iraque. Embora a indústria do turismo não tenha recuperado seu índice de 2002, a França foi o país que mais recebeu turistas em 2004 (75 milhões).


Um dos setores que não mostra sinais de fragilidade é o mercado imobiliário parisiense. No primeiro trimestre de 2005, o aumento do preço dos flats na capital chegou a 14,5%. Os bo-bos (burgueses boêmios) estão procurando flats mais acessíveis em bairros tradicionalmente operários como Goutte d'Or e Sainte- Marthe, ao norte, o que inflacionou o preço dos imóveis nessa região (22,8% no décimo arrondissement). Paris está ficando tão cara que os parisienses, e principalmente aqueles com crianças, estão se mudando para o banlieue. O número de apartamentos com três e quatro dormitórios vendidos na capital caiu 2% em 2004, enquanto cresceu na mesma proporção nos arredores da cidade. Mas, se o ano de 2005 foi o ano do ‘non’ em Paris, pelo menos alguém disse ‘oui’ (sim). Depois de um ano de ausência na seleção francesa, a volta de Zinedine Zidane foi reconhecida como o fim de uma (relativa) crise no futebol francês – apesar de ele ter sido expulso no final da Copa de 2006, que a França perdeu para a Itália.


     

 





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