Guia para os bons de copo
“Vamos a tomar algo?”. Não se deixe enganar por essa ubíqua frase argentina. Enquanto em seu país isto poderia significar muitas cervejas, aqui pode ser tanto um Daiquiri com basilicão cuidadosamente elaborado ou um refrigerante. Na Argentina, o importante não é o efeito inebriante do álcool, mas a interação social que ele produz. Basta dizer que os hábitos etílicos dos argentinos são bem diferentes dos que se contentam com o método de virar o copo. Para se preparar para o choque cultural que é beber em Buenos Aires, continue lendo. O primeiro problema é conseguir ser servido.
É bem provável que os barmen na Argentina estejam mais preocupados com a perfeição do coquetel do que com matar a sua sede. Mas não se desespere, seu pedido será atendido a qualquer momento. Graças à legislação extremamente liberal, não existe essa coisa de último pedido. Portanto, a corrida para acumular bebidas antes do fechamento é totalmente desnecessária. Também é importante notar que, via de regra, o argentino não bebe muito. Acontece de grupos ocuparem um espaço privilegiado por horas enquanto compartilham uma Coca Light e ninguém vai pestanejar. Beber até cair não é o objetivo; o foco é mais direcionado a conquistar pessoas do sexo oposto do que consumir muita bebida. Até mesmo nas festas da cerveja, a ênfase está mais no ser visto do que no consumo de cerveja. Mesmo assim, os argentinos sabem se embebedar.
O gosto deles para bebida alcoólica é um capítulo à parte. Num país que produz alguns dos melhores vinhos do continente, você pode se surpreender ao ver os argentinos cometerem o sacrilégio de adicionar ao seu vino tinto um pouco de água com gás, para não falar no gelo no champanhe. E há também as bizarras misturas alcoólicas tão populares: Fernet Branca, por exemplo, um preparado com ervas que normalmente se mistura com Coca-Cola e tem gosto de solução bucal; ou o melado e pegajoso Gancia Batido, preparado com vermute Gancia, ao qual se adiciona limão e açúcar até que fique com a aparência da água do banho que você acaba de tomar. Também vale a pena fazer uma pausa antes de se comprometer a pagar uma rodada para 14 pessoas no início da noite. Seu presente será aceito de bom grado, mas não espere um retorno do investimento – da terceira cerveja em diante, você estará bebendo sozinho.
E, por ser tão sem importância para os argentinos, poucos pensarão duas vezes antes de tomar uns goles da sua bebida. Portanto, vigie seu copo se quiser se embebedar. E atenção: a festa pode durar até o amanhecer. Sendo assim, a moderação é muito importante. Finalmente, esteja ciente de que a alegre e agitada Buenos Aires não é o lugar ideal para se curar de uma ressaca, muito menos em um colectivo (ônibus urbano): a combinação de suspensão ruim, ruas de paralelepípedo e estômago embrulhado o deixará passando muito mal.
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